Tráfico humano, um perigo para quem quer migrar

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Sandra Luz, nossa colunista de Portugal, faz um alerta sobre o tráfico humano, real e cruel. “Aproveito o gancho para dizer o óbvio: crise é oportunidade para muitos criminosos”, garante a jornalista, que conheceu histórias de pessoas que foram vítimas de golpes. Recentemente, um jornal português publicou a história de uma brasileira que acertou emprego no Brasil para aqui atuar como cabeleireira. Ao chegar, com o filho de 2 anos, teve os documentos apreendidos, a criança recolhida e foi obrigada a se prostituir para pagar a dívida com o aliciador. Diante de tanta barbaridade, Sandra resolveu abordar o tráfico humano na sua coluna. 

Pouca vergonha a discussão daquele grupo de empregos do Facebook. Nem leia“. Essa frase foi dita quando eu atendi o telefone no automático. Não li àquela hora, era madrugada mesmo, mas esse é o tipo da mensagem traduzida assim: “Leia logo. É urgente, vai!“.

Como sou obediente, entrei no aplicativo cedinho. O café esfriou na minha mão enquanto relia e lia e relia novamente a mensagem com o seguinte enunciado: “Clínica precisa de recepcionista”. Fiquei assustada com a resposta: “Nossos clientes são do sexo masculino e as terapias têm uma vertente sensual (…) Todas as terapias terminam com uma descompressão manual do cliente”.

De onde eu vim, esse tipo de terapia tem outro nome, bem como a descompressão manual. Foi então que entendi o desespero da minha amiga. Eu a havia adicionado a um grupo de propostas de emprego em Portugal.

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Grupo criado para oferecer trabalho em Portugal: golpe que pode prejudicar muitos imigrantes.

Tráfico humano: perigo em Portugal

Tudo começou com uma discussão que grandes amigas podem ter: “você precisa ajudar a filha da fulanaSe não fosse ela… Caso ela não tivesse feito… Depois que ela…”. Lá se vão três parágrafos para eu dizer: “não deixe a filha da fulana sair do Brasil sem suporte, sem algum tipo de preparo sólido e, principalmente: não deixe que aceite propostas de emprego duvidosas”. 

Para aplacar a teimosia que só melhores amigas têm, decidi adicionar ela e a menina a um dos muitos grupos de emprego em Portugal. No fim das contas, foi combustível para mais uma discussão.

Minha amiga e, talvez, a fulana têm conhecimento das redes de prostituição que se aproveitam da fragilidade de pessoas que esperam fugir de crises econômicas, como a vivida pelo Brasil e mesmo do deslumbramento por morar na Europa

Após ler a tal mensagem, liguei para ela e expliquei um zilhão de coisa já sabidas, mas que não custava repetir. Soube depois que a menina nem queria sair do Brasil, mas a mãe, com as amigas, passou a travar uma imensa corrida em busca do Eldorado, talvez de Pasárgada, temendo um possível desemprego.

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Em Portugal, há muitos casos de pessoas que foram vítimas de criminosos que se aproveitam do desespero e despreparo dos imigrantes.

Crise é oportunidade para criminosos

Aproveito o gancho para dizer o óbvio: crise é oportunidade para muitos criminososOs próprios comentários apontavam que não era aquela a primeira vez que o proprietário da tal clínica de massagem procurava uma “recepcionista” e mudava o conteúdo da oferta de trabalho quando recebia o inbox de um candidato. Indignada, uma das integrantes postou a mensagem em uma tentativa de alertar os demais.

Piadas não faltaram, como de um garoto dizendo ter ao menos uns 20 anos de experiência em “massagem com descompressão manual”. Outros queriam descomprimir a cara do sujeito a socos. É lógico que esse tipo de situação é oportunidade garantida para brincadeiras de cunho pejorativo. Também foi lógico o alerta para evitar embarques em uma canoa furada e situações que abrem porta à exploração de todo tipo.

Há em Portugal um órgão responsável pela política de imigração, o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) e que periodicamente divulga investigações que resultam no desmantelamento de quadrilhas de exploração de seres humanos.

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Os aliciadores prometem mundos e fundos e na hora H deixam as vítimas a ver navios.

Rede de prostituição x tráfico humano

No fim do mês de março, o SEF divulgou algumas ações de investigações sobre uma rede de prostituição. Depois veio mais uma, depois outra e ainda estamos em maio. Sobre o assunto, o Jornal de Notícias, um dos principais periódicos de Portugal, trazia uma matéria relatando investigações relacionadas a uma rede de prostituição que atraía mulheres e homens do Brasil e Paquistão por meio de contratos de trabalho fictícios para Lisboa.

O jornal estampou a história de uma brasileira que acertou emprego no Brasil para aqui atuar como cabeleireira. Ao chegar, com o filho de 2 anos, teve os documentos apreendidos, a criança recolhida e foi obrigada a se prostituir para pagar a dívida com o aliciador.

E por que não fugiu? Porque não dá. A tentativa acaba em espancamentos e, não raro, morte. Estar só em um país estranho e com o filho sequestrado são bons argumentos para permanecer no cativeiro.

Depois dessa história, vieram as divulgações do SEF sobre ações contra o tráfico de pessoas em Coimbra, Leiria e Viseu. Além da prostituição, há quem contate trabalhadores em países pobres para trabalhar de maneira ilegal em cozinhas, restaurantes e supermercados com a promessa de visto de permanência.

Um Portugal chocado assistiu no fim de 2016 a história do servidor público que, para não denunciar ilegais, exigia trabalhos domésticos em sua casa, localizada em Lisboa. Entre as atribuições, estavam os cuidados com a mãe, uma idosa.

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Tráfico humano já foi tema da novela Salve Jorge, escrita pela autora Gloria Perez.

Tráfico humano: 286 casos entre 2008 e 2015

Com tantos feitos, dei uma passada de olhos nos números, que de tão fartos ardem. O SEF realizou 292 ações em 2016. Entre os órgãos colaboradores do SEF está o Observatório do Tráfico de Seres Humanos. Foram contabilizados 286 casos de tráfico de pessoas entre 2008 e 2015.

No início deste ano, uma pessoa foi presa tentando entrar em Portugal com uma criança de 12 anos que trazia um passaporte alemão. A mãe foi localizada e restou imaginar como aquilo aconteceu. 

Poderia ocupar algum espaço a expor dados, relatar mais e mais histórias para tentar reforçar esse alerta, mas lembro de algumas conversas que já tive e sei que a maioria das pessoas acredita que isso, como por um poder biônico, não lhes vai acontecer. Só que acontece.

Para Portugal ou qualquer outro lugar do planeta, sempre haverá alguém a colorir o mundo. Isso se chama aliciar. Nessa imposição de poderes extraordinários aos países desenvolvidos, muitas pessoas se veem sem passaporte e de lingerie a cumprir dezenas de programas por dia entre um espancamento e outro.

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A jornalista Sandra Luz conheceu histórias de quem foi vítima do tráfico humano.

Cuidado com ofertas de cidadania

Não é só a prostituição que está a roubar vidas e também não são apenas os muito pobres a cair conto do vigário. Os grupos de ajuda a brasileiros em redes sociais expõem com uma certa frequência histórias de pessoas que alugaram imóveis e contrataram serviços inexistentes. Só se descobrem vítimas de charlatões quando desembarcam no país para onde pretendem migrar.

Ouço também histórias de descendentes de europeus que já desembolsaram elevadas quantias para a obtenção da cidadania na terra dos antepassados. Essa é uma possibilidade e para ela existem regras que diferem de país para país.

No caso de descendentes de portugueses, a legislação garante a nacionalidade até a terceira geração. Filhos e netos precisam comprovar, por meio de documentos, a ligação com o antepassado. Mais que isso é inverdade e há escritórios que lucram com a “pesquisa de antepassados” alimentando a esperança de pessoas que acreditam ter o direito ao passaporte europeu.

A maioria dos brasileiros, como eu, tem sobrenome luso por imposição histórica sem que essa ligação, hoje, fizesse sentido na lei portuguesa. Na certeza de buscar uma fatia do DNA europeu, comum aos latino-americanos, sobram desembolsos a esses tais escritórios.

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Tráfico humano é realidade em todo o mundo: é sempre bom ficar alerta quando for morar em outro país.

Duvide de promessas mirabolantes

A verdade é que a participação de compatriotas sem escrúpulos garante a movimentação dos tentáculos desses crimesDifícil é falar com leveza de algo tão espinhosoO tráfico de seres humanos está na terceira posição entre as atividades ilícitas mais lucrativas. Perde para o tráfico de drogas e armas e um retroalimenta o outro.

Também difícil é ignorar que muitas pessoas desejam migrar e, acredito, têm esse direito. Assim, para quem está com essa ideia, aconselho tratar todo e qualquer assunto nos consulados. Todos podem ser encontrados no Google. Esses sítios na internet trazem de maneira minuciosa as informações necessárias, como endereços, documentos e prazos.

Eu mesma já aconselhei a olhada em grupos de troca de informação nas redes sociais, como o Facebook. Eles são muito úteis, mas para trocar informações, não contratar serviços. Sempre duvidar de promessas mirabolantes vale para tudo, quem dirá para migrar. Pela legislação atual, entrar como turista para se legalizar depois é ilegal.

Algumas redes vendem passaportes falsificados ou aconselham entrar por outros países para, depois, chegar ao destino desejado. Melhor não pensar que esse “jeitinho” será eficaz, porque não é e o máximo que a pessoa poderá conhecer é o interior de um aeroporto.

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Cartaz que faz alerta sobre o tráfico humano em Portugal.
Serviço

Quem pensa em migrar para Portugal deve acessar os seguintes sites: 

http://consuladoportugalsp.org.br/ 

 www.sef.pt 

http://www.irn.mj.pt 



sandra-luzSandra Luz é jornalista e reside no Porto, a cidade invicta de Portugal. Atua há duas décadas com a produção de conteúdo jornalístico. Trabalhou em meios digitais, como o site Campo Grande News e na formulação do site do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Atua na produção e gestão de conteúdo em Portugal, onde faz doutorado em Ciências da Informação pela Universidade Fernando Pessoa. E-mail:



 

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Um comentário em “Tráfico humano, um perigo para quem quer migrar

  • 29/05/2017 em 11:16 AM
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    Excelente! Obrigado pelas informações, amo morar em Portugal

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